A criança está aprendendo a ler... ou está se tornando leitora?

 


Uma reflexão sobre alfabetização e formação de leitores.

É comum que, durante o ciclo de alfabetização, a preocupação do professor esteja voltada para um objetivo muito importante: fazer com que a criança aprenda a ler e a escrever.

Mas, em meio às atividades de consciência fonológica, ao estudo das letras, das sílabas e da escrita de palavras, uma pergunta merece espaço em nosso planejamento:

Estamos ensinando apenas o sistema de escrita ou também estamos formando leitores?

Magda Soares nos lembra que alfabetizar e letrar são processos diferentes, mas inseparáveis. Enquanto a alfabetização permite que a criança compreenda o funcionamento do sistema de escrita, o letramento a insere nas práticas sociais da leitura e da escrita, dando sentido ao que aprende.

Isso significa que aprender a decodificar palavras não garante, por si só, o desejo de ler.

Uma criança pode ler corretamente um texto e, ainda assim, nunca procurar um livro espontaneamente. Da mesma forma, outra criança pode ainda não dominar completamente a leitura convencional, mas demonstrar curiosidade pelos livros, pelas histórias e pelas ilustrações.

É nesse encontro entre alfabetização e letramento que a literatura encontra seu lugar.

Quando o professor lê diariamente para a turma, apresenta diferentes gêneros literários, conversa sobre autores, permite que as crianças escolham livros e cria momentos de leitura por prazer, ele mostra que a escrita não existe apenas para responder atividades ou preencher cadernos. Ela existe para emocionar, informar, imaginar e transformar.

A formação do leitor começa muito antes da leitura autônoma.

Ela começa quando a criança percebe que os livros fazem parte da vida da escola.

Começa quando escuta uma história e pede para ouvi-la novamente.

Começa quando reconhece um personagem, quando cria hipóteses sobre uma capa, quando comenta uma ilustração ou quando leva um livro para casa porque simplesmente quis continuar aquela história.

Se desejamos formar leitores, talvez seja necessário ampliar nossa pergunta.

Não basta perguntar:

"Meu aluno já lê?"

Talvez devêssemos perguntar também:

"Meu aluno tem motivos para querer ler?"

Por Camila Mota


Referência

SOARES, Magda. Alfabetização e Letramento. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2017.

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