O problema não era a Cinderela


Lembro de uma aula em que estávamos trabalhando a história da Cinderela. O objetivo era simples: ler o texto do livro didático, conversar sobre a narrativa e realizar a atividade.

Comecei a leitura como tantas outras vezes. Enquanto lia, percebi algo que todo professor conhece bem. Alguns alunos bocejavam. Outros apoiavam a cabeça sobre a carteira. Havia quem olhasse para a janela e quem folheasse as páginas sem realmente acompanhar a história.

A culpa não era da Cinderela.

Também não era das crianças.

Naquele momento, percebi que a forma como eu estava apresentando aquela história já não fazia sentido para aquela turma.

Fechei o livro.

Perguntei como seria a Cinderela se morasse no bairro onde eles viviam.

As respostas começaram tímidas, mas logo a sala ganhou vida.

— Ela iria de bicicleta para a festa.

— O sapatinho seria um tênis.

— A madrasta esconderia o celular dela.

As crianças começaram a rir, discutir e imaginar novas possibilidades para uma história que julgavam conhecer.

Na aula seguinte, organizamos um pequeno cenário na sala. Cada grupo ficou responsável por reinventar uma cena da narrativa. Surgiram personagens novos, finais inesperados e até uma Cinderela que recusou esperar por um príncipe porque tinha outros sonhos.

Foi naquele dia que compreendi uma lição importante.

Nem sempre o problema é o texto.

Às vezes, o problema é acreditar que existe apenas uma maneira de chegar até ele.

A literatura continua encantando. O que, muitas vezes, precisa mudar é a mediação.

Inspirado em vivências da sala de aula.

Por Camila Mota

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