O primeiro encontro com um livro também ensina a ler


Uma reflexão sobre como apresentamos a literatura às crianças.

Há um momento que costuma passar despercebido na rotina escolar: a chegada de um livro às mãos de uma criança.

Antes da leitura, antes das perguntas, antes da atividade proposta, existe um encontro. É nesse instante que o professor apresenta a capa, permite que os olhos percorram as ilustrações, lê o título em voz alta, desperta curiosidade e cria expectativas. Parece um gesto simples, mas talvez seja um dos momentos mais importantes na formação de um leitor.

Vale a pena perguntar: como os livros chegam às crianças em minha sala de aula?

Chegam como um convite ou como uma tarefa?

Chegam como uma descoberta ou como o início de uma sequência de exercícios?

Magda Soares lembra que alfabetizar é inserir a criança nas práticas sociais de leitura e escrita. Isso significa compreender que aprender a ler não acontece apenas quando se decifram palavras, mas quando se participa de experiências em que a leitura possui sentido, propósito e prazer.

Quando um livro é apresentado apenas para localizar letras, separar sílabas ou responder perguntas de compreensão, a criança pode concluir que a literatura existe para cumprir uma atividade escolar. Aos poucos, o encanto dá lugar à obrigação.

Isso não significa que o livro não possa dialogar com os objetivos da alfabetização. Pelo contrário. A literatura oferece inúmeras oportunidades para ampliar o vocabulário, desenvolver a oralidade, compreender o funcionamento da língua e construir conhecimentos sobre a escrita. A diferença está no caminho escolhido pelo professor.

Primeiro, a criança precisa viver a experiência da leitura. Precisa rir, imaginar, surpreender-se, fazer perguntas, levantar hipóteses sobre a história, observar as ilustrações e construir sentidos. Só depois a obra pode inspirar outras aprendizagens.

No ciclo de alfabetização, apresentar um livro também é ensinar.

Ensina-se quando se mostra que existe um autor por trás da história.

Ensina-se quando se observa a ilustração da capa e se pergunta: "Sobre o que vocês imaginam que este livro vai falar?"

Ensina-se quando as crianças descobrem que cada livro possui um título, uma editora, um ilustrador e um projeto gráfico.

Ensina-se quando o professor demonstra cuidado ao abrir um livro, respeita o tempo da narrativa e permite que o silêncio também faça parte da leitura.

São pequenas escolhas que comunicam às crianças que aquele objeto merece atenção e cuidado.

Talvez formar leitores comece muito antes da leitura em si. Comece na maneira como seguramos um livro, na expectativa que criamos, no tempo que dedicamos à contemplação da capa e no entusiasmo com que pronunciamos as primeiras palavras da história.

Afinal, ninguém aprende a amar os livros apenas porque aprendeu a ler. Aprende porque, um dia, alguém apresentou um livro como quem oferece um presente.

Para refletir!

Na próxima leitura literária, observe apenas os cinco primeiros minutos da atividade.

Eles despertam curiosidade ou apenas anunciam uma tarefa?

Talvez a resposta esteja justamente no início da história.

Por Camila Mota


Referência

SOARES, Magda. Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever. São Paulo: Contexto, 2020.


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