Você está formando leitores ou apenas ensinando a ler?


Você está formando leitores ou apenas ensinando a ler?

Há uma pergunta que todo professor deveria fazer a si mesmo de vez em quando.

Os meus estudantes estão aprendendo a ler... ou estão se tornando leitores?

Embora pareçam a mesma coisa, essas duas experiências caminham por caminhos diferentes.

Aprender a ler é dominar um código. É reconhecer letras, juntar sílabas, compreender palavras e construir sentido para um texto.

Formar leitores é algo muito maior.

É fazer com que uma criança procure um livro porque está curiosa. É vê-la rir de uma personagem, emocionar-se com uma história, pedir que a leitura continue quando a aula termina. É perceber que ela começa a olhar para os livros como quem encontra um lugar onde pode imaginar, sentir e descobrir.

Infelizmente, muitas vezes a literatura ainda ocupa um espaço reduzido na escola. Ela aparece como um pretexto para responder perguntas, preencher fichas ou produzir atividades que pouco dialogam com a experiência literária.

E então vale outra pergunta:

Quando foi a última vez que você leu uma história para sua turma sem transformar esse momento em uma atividade?

Sem uma folha de exercícios.

Sem um questionário.

Sem pedir um desenho no final.

Apenas pelo prazer de compartilhar uma boa história.

O pesquisador Rildo Cosson lembra que a literatura precisa ser vivida como uma experiência de letramento literário, na qual o leitor constrói sentidos, dialoga com o texto e amplia sua compreensão de si e do mundo. Isso significa reconhecer que o livro não é apenas um recurso pedagógico, mas um direito cultural e humano.

Talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores desafios da escola.

Não basta que as crianças saibam ler.

É preciso que desejem ler.

Que sintam falta das histórias.

Que descubram autores.

Que conversem sobre livros.

Que frequentem bibliotecas.

Que percebam a leitura como parte da vida, e não apenas como parte da avaliação.

Cada escolha do professor comunica uma mensagem.

Quando reservamos tempo para ler sem pressa, mostramos que a literatura merece esse espaço.

Quando ouvimos as interpretações das crianças, mostramos que suas vozes importam.

Quando permitimos que um livro seja apreciado antes de ser analisado, mostramos que a leitura também pode ser afeto, encontro e encantamento.

Talvez formar leitores não dependa apenas de grandes projetos.

Talvez comece em um gesto simples.

Sentar ao lado da turma.

Abrir um livro.

E permitir que a história faça o que só a literatura é capaz de fazer.

Para continuar pensando...

Se todas as atividades que acompanham suas leituras desaparecessem amanhã, seus estudantes ainda pediriam para ouvir uma história?

Talvez essa resposta revele muito mais sobre nossas práticas do que qualquer avaliação.

Por Camila Mota


Referência

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2021.

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