Antes da atividade, existe o encantamento: Reflexões sobre o lugar da literatura na sala de aula.


Há uma cena que se repete em muitas escolas.

O professor termina de ler uma história e, imediatamente, distribui uma atividade. Um questionário. Uma ficha de interpretação. Um desenho para colorir. Uma produção textual.

E então surge uma pergunta que merece nossa atenção:

Será que toda leitura literária precisa terminar em uma atividade?

Durante muito tempo, a literatura foi utilizada na escola como um instrumento para ensinar outros conteúdos. O livro servia para estudar gramática, identificar personagens, localizar informações ou avaliar a compreensão leitora. Pouco espaço era reservado para aquilo que torna a literatura única: a possibilidade de emocionar, imaginar, surpreender e provocar encontros.

Antes de ensinar qualquer conteúdo, a literatura precisa ter o direito de ser literatura.

Quando uma criança escuta uma história, ela não está apenas acompanhando uma narrativa. Ela está construindo imagens, fazendo perguntas, reconhecendo emoções, criando hipóteses, relacionando o texto com suas próprias experiências e descobrindo novas formas de compreender o mundo.

É nesse momento que acontece o encantamento.

E o encantamento não nasce da atividade que vem depois.

Ele nasce da voz do professor, do silêncio atento da turma, da expectativa pelo próximo acontecimento, do riso compartilhado, da surpresa diante de um final inesperado e da liberdade de imaginar.

O crítico literário Antonio Candido, em seu ensaio O direito à literatura, defende que a literatura é uma necessidade humana e um direito de todos, pois contribui para nossa humanização. Ao reconhecer a literatura como parte essencial da formação das pessoas, o autor nos lembra que seu valor não está apenas naquilo que ela pode ensinar, mas na experiência que proporciona ao leitor. Antes de se tornar um recurso pedagógico, o livro literário precisa ser vivido, sentido e compartilhado.

Isso nos leva a outra reflexão.

Será que, às vezes, temos tanta preocupação em comprovar que a criança leu, que esquecemos de permitir que ela simplesmente viva a leitura?

Isso não significa abandonar as atividades pedagógicas.

Elas têm seu lugar e podem enriquecer o trabalho com a literatura quando respeitam o tempo da experiência leitora. O problema não está na atividade em si, mas quando ela se torna o objetivo principal da leitura.

Nem todo livro precisa terminar com uma folha impressa.

Às vezes, a melhor resposta para uma boa história é uma conversa.

Outras vezes, é o silêncio.

É a criança que pede para ouvir o livro novamente.

É aquela que leva a obra para casa.

É a que procura outro livro do mesmo autor.

São esses gestos que revelam que a literatura ultrapassou a obrigação escolar e começou a ocupar um espaço na vida do leitor.

Talvez seja esse um dos maiores desafios do professor que realiza a leitura literária em sala de aula: lembrar que, antes de ensinar qualquer habilidade, é preciso permitir que os estudantes sejam tocados pelas histórias.

Porque a atividade pode consolidar uma aprendizagem.

Mas é o encantamento que desperta o desejo de continuar lendo.

Para continuar pensando...

Quando você termina uma leitura, o que acontece primeiro na sua sala de aula: a atividade ou a conversa sobre a história?

Talvez essa resposta revele o lugar que a literatura ocupa em nossa prática pedagógica.

Por Camila Mota


 Referência

BARBOSA, Weslley. O direito à literatura, de Antonio Candido. YouTube, 10 mar. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wRTJKbSXtPE. Acesso em: 2 ago. 2026.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011. p. 171-193.


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